Enquanto eu ainda sonhava com a viagem pelo norte europeu, bastava olhar no mapa para sentir um comichão. A Rússia estaria ali tão pertinho, por que não dar uma esticada? Mas, apesar da proximidade, havia a questão do visto. Se fosse para me submeter aos trâmites chatinhos vigentes na época, com certeza eu iria querer aproveitá-lo melhor e conhecer vários lugares na Rússia. Só que isso alteraria bastante o propósito da viagem e eu tinha que manter o foco. Mas então, em junho de 2010, veio a grande novidade: os turistas brasileiros ficaram isentos do visto para a Rússia! Para arrematar, seis meses depois foi inaugurado um novo trem ligando Helsinque a São Petersburgo, o Allegro. Os 450 km que separam as duas capitais poderiam ser percorridos em 3,5 horas. Assim já não era mais possível resistir! ;-)
Já que agora podemos entrar e sair da Rússia quantas vezes quisermos, incluí apenas São Petersburgo no roteiro, sem peso na consciência. O meio de transporte escolhido, é claro, foi o novo trem rápido. Hoje no site da empresa finlandesa que opera o serviço, a VR, consta a informação de que é possível comprar as passagens para a Rússia pelo site, mas na época em que pesquisei esse sistema ainda não estava disponível. Entrei em contato por e-mail e fiz a reserva das passagens, que deveriam ser pagas até dois dias antes da viagem. Para realizar o pagamento antecipadamente, poderíamos passar os dados do cartão de crédito por e-mail, opção nada segura e que logo descartamos. Como estaríamos em Helsinque com antecedência suficiente, preferimos fazer o pagamento e retirar as passagens na estação no dia em que chegássemos à cidade.
Na estação foi tudo bem fácil. Retiramos uma senha na entrada e fomos chamados rapidamente. Pagamos 92,20€ por pessoa pelo ticket na segunda classe (consulte valores atualizados aqui). Não é barato, mas a relação custo-benefício é ótima. Vale a pena!


No dia marcado fomos a pé para a estação, já que nosso hotel não ficava muito longe e nossas mochilas, com cerca de 8kg cada uma, nos permitiam caminhar (mais uma vantagem de se viajar leve!). Nosso trem partiu da estação às 10h.


O Allegro é novinho, confortável e moderno. As informações são narradas em diversas línguas, inclusive inglês. O espaço entre as poltronas é ótimo e há tomadas em todas elas. Nosso vagão não estava muito cheio. A maioria dos passageiros era turista. Não tivemos muita sorte com o tempo, pois choveu boa parte da viagem e não pudemos aproveitar a paisagem, mas mesmo assim foi legal acompanhar o trajeto, perceber as mudanças à medida em que nos aproximávamos da Rússia, imaginar cada cerca de arame farpado como um resquício do período comunista…



Viajar de trem tem muitas vantagens. Chegar e sair das regiões centrais das cidades talvez seja a maior delas. Não ter que chegar com uma hora de antecedência para fazer check-in ou não ter que esperar as malas ao desembarcar também nos ajudam a economizar um tempão. Sem contar aquela chatíssima restrição de líquidos na bagagem de mão que temos que observar nos vôos. No caso do trem entre Helsinque e São Petersburgo, há uma grande vantagem adicional: os trâmites burocráticos na fronteira são realizados a bordo.
A saída da União Européia foi feita rapidamente quando alguns funcionários passaram nas poltronas carimbando os passaportes. Depois vieram duas russas registrar a entrada no país. As nossas foram as que mais demoraram, pois nossos passaportes são do modelo antigo (sem chip) e elas tiveram que digitar nossos dados. Para finalizar, veio mais um funcionário russo, dessa vez dando uma olhada nas malas. Ele pediu para ver apenas as nossas e a de mais um passageiro, imagino que porque éramos os mais novos do nosso vagão. Mas ele nem chegou a inspecionar direito. Perguntou onde estava nossa bagagem e o Eduardo pegou uma delas. Quando ele ia abrir a mochila, o russo perguntou o que havia no compartimento de baixo, o Eduardo respondeu que eram sapatos, e foi só. Nada de filas de espera, sequer precisamos sair do nosso lugar. Sem dúvidas o trem foi a melhor opção.
Às 14h30 chegamos a São Petersburgo, que está uma hora adiantada em relação a Helsinque. As horas de viagem passaram rápido enquanto antecipávamos sensações do que nos esperava. Impossível viajar para a Rússia sem que diversas emoções e conceitos pré-concebidos venham à tona. Mas sobre isso eu tenho muito a falar, então o assunto vai ter que ficar para o próximo post. ;-)







