Quando o despertador tocou às 5h50 da manhã e abri os olhos no quarto ainda escuro, meu primeiro pensamento veio com um misto de ansiedade e arrependimento. Isso é hora de acordar durante as férias? O pior é que eu nem sequer tinha a quem culpar, a idéia tinha sido minha mesmo. Seguimos pelas ruas de uma Pucón que ainda dormia até a agência, onde encontramos outros malucos sonolentos como nós. Experimentamos as roupas, botas e equipamentos que usaríamos e enchemos nossas mochilas, que já guardavam água e comida para o dia, com toda a tralha. O peso já indicava que a subida não seria tão fácil quanto eu imaginava.
Por volta das 07h da manhã entramos na van com o restante do nosso grupo: um coreano, uma família argentina (pai, mãe e filha) e cinco chilenos (um rapaz sozinho, uma dupla de amigas e mãe e filha). Além deles, o motorista e os três guias que nos acompanhariam. A viagem durou mais de meia hora. Quando chegamos à base do Vulcão Villarrica, já era dia.

A primeira parte da subida foi através de um teleférico, que nos poupou cerca de uma hora de caminhada. Ele é opcional e custa 6.000 pesos por pessoa, mas no nosso grupo ninguém foi bobo de recusar esse atalho. Nos dias de muito vento o teleférico não funciona, mas nós tivemos sorte de pegar um dia de clima tranquilo. Em alguns momentos ele atinge uma altura considerável e não há nenhum tipo de trava ou proteção à nossa frente, então é até fácil entender o porquê das restrições de funcionamento dependendo do tempo.



Só então começamos a subida de verdade, quando já era quase 09h. A primeira parte foi mais tranquila, ainda na terra, mas foi a mais longa. Caminhamos cerca de uma hora, com uma pequena pausa no meio do caminho para bebermos água. Nessa parte da montanha já havia neve, mas era possível se desviar dela e percorrer o trajeto seco na maior parte do tempo. Ali o sol já estava forte e o casaco foi parar na mochila.



A pausa maior ocorreu antes de começarmos a caminhar na neve. Foi o descanso mais longo. Tivemos cerca de meia hora para lanchar, reaplicar o protetor solar e contemplar o visual ao nosso redor. Avistado de lá, o cume do vulcão nem parecia tão distante. Naquele momento os guias já tinham uma certa noção de quem conseguiria ou não concluir a empreitada e incentivaram aqueles que sentissem que não estavam bem a já desistir, pois a partir dali a volta ficaria mais complicada. Até ali três mulheres do meu grupo já haviam desistido. Um dos guias não seguiu conosco e ficou nesse ponto, como ponto de apoio. Recebemos também mais instruções sobre o uso dos piolets (uma espécie de picareta utilizada para auxiliar e garantir a segurança nas escaladas/caminhadas na neve).





A segunda parte foi para mim a mais difícil de todas. Foi um longo trecho exclusivamente na neve e muito íngreme. E o mais difícil de tudo é que não dá para parar. Como nosso guia sempre repetia, o segredo da subida é o ritmo da caminhada. Na neve nós tínhamos que seguir todos um mesmo caminho, em zigue-zague, em velocidade constante. Quem vai atrás anda sobre as pisadas deixadas por quem vai na frente. Em alguns trechos as pisadas estavam tão bem marcadas que formavam buracos fundos onde nossos pés se encaixavam.
Ao meu cansaço se somava o medo de pisar errado e deslizar. Meus olhos se concentravam nos pés à minha frente, nada mais. Ao meu lado, apenas uma ladeira. Eu não me sentia segura o suficiente com meu piolet para garantir que conseguiria frear minha descida caso escorregasse. O frio da neve não conseguia combater o calor do sol nela refletido, mas a sede não era suficiente para que eu me atrevesse a pegar a garrafa de água às minhas costas. O medo de me desequilibrar era maior. Essa insegurança acabou me deixando mais lenta e durante esse trajeto eu pensei várias vezes que não iria conseguir chegar ao final. As outras mulheres do grupo já haviam desistido. Segui em frente, um passo após o outro, sem os escorregões que eu tanto temia.


Depois de quase uma hora paramos novamente, antes de enfrentar a terceira e última etapa. Essa parte também foi um pouco difícil, pois era em um terreno muito íngreme cheio de pedras soltas. Era preciso ter bastante cuidado ao caminhar, mas pelo menos não havia mais neve e foi um trajeto bem curto.
E então, quase quatro horas após o inicio da caminhada, chegamos ao topo do vulcão! A sensação de vitória é indescritível! A euforia é tanta que a gente esquece todo o cansaço e a insegurança que sentimos durante o percurso. Naquela hora sentimos que tudo valeu a pena! Vencido o desafio, tudo o que queríamos era contemplar a vista que tínhamos a 2.843 m de altitude, nosso prêmio por não termos desistido.







A grande estrela lá em cima é a cratera do vulcão, é claro. Dizem que às vezes é até possível avistar a lava em seu interior, mas eu não tive coragem de chegar assim tão perto da borda para verificar. Sem contar que o cheiro de enxofre é insuportável! Mesmo quando não estávamos tão perto da cratera, quando batia um vento em nossa direção quase caímos para trás com o cheiro intoxicante!



Por causa dos gases, que realmente são tóxicos e que sopravam forte naquele dia, não pudemos ficar tanto tempo quanto queríamos lá em cima, mesmo tendo tempo suficiente para fazermos a volta com calma. Então logo vestimos nossas roupas para a descida: calça e casaco impermeáveis e uma pequena prancha que seria usada no skibunda, a forma mais rápida de descer o vulcão.


Nós só temos fotos dessa atividade porque, felizmente, o coreano que estava no nosso grupo foi mais animado que os demais e nos fotografou enquanto descíamos. Graças a ele temos fotos ótimas do skibunda!



O trajeto de volta na neve durou cerca de uma hora. A maioria das pessoas acha divertido, mas eu achei também bem cansativo. Eu eu não conseguia pegar muita velocidade e pouquíssimas vezes precisei usar o piolet para frear. E nas partes entre um tobogã e outro eu escorregava o tempo todo! Foi uma sequencia de tombos! Além disso, alguns trechos são um pouco perigosos. Em um deles o Eduardo, o chileno e o argentino passaram reto no final do tobogã. O chileno parou em uma ilha de pedras, o guia que nos esperava conseguiu segurar o argentino pela mochila e o Eduardo parou fincando o piolet na neve. Foi um momento meio tenso! A neve no verão é antiga e muito escorregadia, por isso é preciso tomar muito cuidado.
O restante do caminho foi pela terra, uma espécie de cascalho fofo e fundo. Não sei se era o cansaço, mas parecia que eu ainda estava andando sobre a neve, escorregando o tempo todo! Mas essa parte já era bem tranquila e sem perigos e os tombos eram motivos apenas de risada. Nós ficamos para trás do nosso grupo, parando para tirar fotos e aproveitando os últimos momentos.


E aqui o nosso grupo, ou melhor, a parte dele que compartilhou a aventura até o final!

Na volta avistávamos o Vulcão Villarrica, tão belo e inofensivo à distância. Quando chegamos a Pucón já passava das 16h. Estávamos exaustos, mas felizes.

A experiência de subir o Vulcão Villarrica foi especial e inesquecível. Sem dúvida foi o ponto alto da viagem, mas eu não recomendaria a qualquer um sem antes fazer algumas considerações:
PREPARO FÍSICO: Eu não sou nenhuma atleta, muito pelo contrário. Há uns dois anos não faço nenhum exercício além de pequenas caminhadas no dia a dia. Não acho que seja preciso um preparo especial para subir o Vulcão Villarrica, mas um mínimo de preparo físico e de fôlego para aguentar as paradas ininterruptas são fundamentais.
ROUPAS: Vá com uma calça apropriada para trekking, meias, camiseta de manga longa (de preferência branca) para se proteger do sol, um casaco mais quente para o frio da manhã e óculos de sol. As agências fornecem as outras roupas e equipamentos necessários. Não se esqueça do protetor solar! E da máquina fotográfica, é claro!
COMIDA: É preciso levar tudo o que será consumido no dia. Nós levamos umas empanadas, chocolate, sucos e 2 litros água para cada um de nós e foi mais do que suficiente. Na verdade até sobrou. Em Pucón há bons supermercados onde é possível comprar os lanches, mas lembre-se de que a água a ser levada deve ser sem gás, pois as embalagens de água gaseificada podem estourar no percurso.
SEGURANÇA: A subida ao vulcão Villarrica é considerada fácil, pois não exige conhecimentos técnicos. É possível atingir o topo apenas caminhando. Ainda assim a atividade envolve riscos e por isso não é aconselhável subir sem um guia especializado ou com autorização da CONAF. Eu achei perigoso, mas vocês devem ter percebido pelo meu relato que eu sou bem medrosa, além de não estar acostumada a esse tipo de esporte. Três semanas depois um brasileiro e um mexicano morreram no vulcão, o que me deixou ainda mais impressionada. Mas as estatísticas confirmam que foi uma fatalidade: cerca de 18 mil pessoas sobem o vulcão anualmente e nas últimas 3 décadas 8 pessoas morreram.
AGÊNCIAS: Há dezenas de agências em Pucón oferecendo o mesmo serviço. Procurar indicações é até difícil, pois muitas são boas. É melhor pesquisar pelas não recomendadas e evitá-las. No Fórum Mochileiros há bons tópicos sobre o assunto. O mais importante a se avaliar é o tamanho do grupo. Quanto maior o número de pessoas, menor a atenção que cada um receberá dos guias, o que diminui bastante a segurança. Nós escolhemos a Turismo Volcán Villarrica e não tenho nenhuma reclamação. Nosso grupo era pequeno e os guias experientes e gentis. Um deles subiu cantando diversas músicas brasileiras, de "Ai se eu te pego" a "Dança da Manivela". ;-) Pagamos 33.000 pesos por pessoa, em fevereiro de 2012.








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