198 Livros: Marrocos – A Palace in the Old Village

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198 Livros: Marrocos Alguns escritores parecem virar os representantes de suas nações, pelo menos no campo cultural. Basta procurar por algum livro do país para que seu nome seja citado diversas vezes. No caso do Marrocos, eu descobri que esse papel é desempenhado por Tahar Ben Jelloun. Nascido em Fez, no Marrocos, hoje ele vive em Paris. Apesar de ter o árabe como língua nativa, seus mais de 20 romances foram escritos em francês, o que com certeza ajudou a popularizar suas obras mundo afora. Seus livros foram traduzidos para diversas línguas e vários deles foram publicados no Brasil, inclusive seu primeiro grande sucesso, O Menino de Areia, de 1985. Com tanta oferta, difícil foi escolher um único livro. Fiquei então com o mais recente.

A Palace in the Old Village conta a história de outro expatriado, Mohammed, um marroquino que vive há quase 40 anos na França. Sua vida passa por uma reviravolta quando ele é obrigado a se aposentar, contra sua vontade. Se pudesse, ele continuaria a trabalhar na fábrica na qual passou tantos anos. O que para muitos representava a liberdade, para ele era o final de tudo. Mohammed é um homem que gosta de rotina. Nos primeiros dias após a aposentadoria, ele se levantou como se nada tivesse acontecido e seguiu para a porta da fábrica, invejando os colegas que podiam lá entrar para trabalhar, sem coragem de contar para a família o que estava acontecendo. Essa nova situação faz Mohammed repensar sua vida e é então que ele decide que é hora de voltar para casa. Ele não quer morrer longe de sua terra natal e de tudo em que acredita e daí surge a idéia de construir uma grande casa em seu vilarejo no Marrocos, uma casa do tamanho de seu coração para abrigar seus filhos e netos. A Palace in the Old Village - Tahar Ben Jelloun

Mohammed é um homem simples, de poucas palavras, honesto e correto de acordo com os princípios nos quais acredita. O Islamismo norteia sua vida. Ele é um homem bom, mas extremamente arraigado às tradições. Décadas de vida na França não o mudaram em nada. O novo país não encontrou espaço em seu coração e, mesmo depois de tanto tempo, nem a  língua francesa ele adotou. As únicas vantagens desse país moderno para ele são os bons  salários e o sistema de saúde, nada mais.

Todos os anos, durante as férias, ele enchia o carro de presentes e partia com a família de volta ao pequeno vilarejo, a mais de 2 mil km. Era lá que ele se reencontrava. Isso quando seus filhos ainda o obedeciam. Ele sente que a França roubou sua autoridade de pai. Os filhos, apesar das feições árabes, se dizem “assimilados”, um conceito que Mohammed não consegue entender. Ele sabe que sempre serão imigrantes, pessoas vistas de forma suspeita e constantemente vítimas de injustiças. Mas isso não impede que os imigrantes do Magrebe promovam a mesma discriminação em relação aos negros da África.

Já deu para perceber que eu gostei bastante do livro, né? Quando falo tanto, é porque muita coisa me marcou. O personagem principal é desenvolvido de forma rica e nos apresenta uma faceta marroquina que talvez esteja em extinção. Vemos dois embates claramente: o de diferentes culturas e o de diferentes gerações. Mohammed não consegue entender e aceitar que seus filhos não tenham o mesmo vínculo que ele tem com Marrocos e com o Islamismo. De onde ele vem, um vilarejo que em pleno século XXI ainda não tem energia elétrica ou água corrente, o direito das mulheres é restrito. Ele se orgulha de nunca ter discutido com a esposa, mas não percebe que isso só acontece porque não há conversa entre eles. Às vezes eu senti raiva de Mohammed, mas na maioria do tempo senti pena desse homem simples que parece cego ao que acontece à sua volta.

Alternando a voz de Mohammed e de um narrador em terceira pessoa, Tahar Ben Jelloun conseguiu criar um enredo envolvente. A situação dos imigrantes na França, o mundo árabe e a vida no interior do Marrocos são o pano de fundo para essa história que eu li querendo absorver cada detalhe. Infelizmente A Palace in the Old Village ainda não foi traduzido para o português. Para quem não lê em inglês, eu recomendaria conhecer outras obras do autor que foram publicadas por aqui. É o que vou fazer assim que tiver oportunidade!

A Palace in the Old Village foi publicado originalmente em francês, em 2009, e em inglês em 2011. A tradução é de Linda Coverale. O livro está disponível na Amazon.

Mais alguns livros de autores marroquinos:

  • Partir, Tahar Ben Jelloun
  • Horses of God, Mahi Binebine
  • The Polymath, Bensalem Himmich

Para saber mais sobre o Projeto 198 Livros, clique aqui.

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14 Comments

  1. Lu Malheiros

    Camila, estou adorando o livro! Também fico com mais pena do que raiva de Mohammed!

  2. Lucimara Busch

    Camila, aqui to pensando em seguir a sua sugestão, e ler “Partir” 🙂

  3. Lucimara Busch

    Gente, aqui li Partir. A história é sobre alguns personagens que tem o sonho de ir pra Europa, que querem ter uma vida boa fora do Marrocos. O personagem principal é Azel, jovem formado em Direito que não consegue trabalho. Mas não é um livro feliz. Pelo contrário, tem bastante tristeza (prostituição, drogas). Apesar disso, foi uma boa leitura e ótima oportunidade para conhecer o escritor. 🙂

    • Lucimara, essa questão da imigração ou mesmo da vontade de partir é super recorrente, não só nos livros desse autos, como em livros de vários países que a gente está lendo. Parece ser muito mais comum do que eu imaginava! Depois vou querer ler Partir também!

      • Lucimara Busch

        É mesmo muito comum Camila! Tá aí uma coisa que eu me dei conta agora, apesar de ter vários amigos/conhecidos que trocaram de país!

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