198 Livros: Palestina – The Lady from Tel Aviv

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198 Livros - Palestina A Palestina era um destino que eu aguardava com ansiedade. Eu sabia que viria coisa boa de lá! O que já aprendi nessa volta ao mundo dos livros é que conflitos são um ótimo fermento para a literatura. As palavras parecem ser as armas que os escritores usam para lutar contra o que oprime seu país e para espalhar suas causas pelo mundo. E é claro que a Palestina tem muito a dizer! A leitura me daria também uma chance de diminuir minha ignorância sobre o assunto. Apesar de ouvir falar muito dos conflitos no Oriente Médio, confesso que às vezes me perco. Lembro que estudei sobre isso na escola, mas, além de já ter esquecido a maioria das aulas de geopolítica que tive, muita coisa muda em 15 anos, né?

Difícil foi escolher um único livro, pois fiquei com vontade de ler vários! Quando se trata de literatura árabe, minha principal fonte de informação é o blog Arablit e nele eu encontrei referências a dois livros que chamaram minha atenção: Touch, de Adania Shibli, e The Lady from Tel Aviv, de Raba’i Al-Madhoun. Conversando com as outras meninas que participam do projeto, escolhemos Touch. O livro é pequenininho, li de um dia para o outro. É diferente de tudo que já li, com um enfoque diferente, instigante. Gostei, mas ele não era o que eu procurava. Assim como aconteceu no livro do Saara Ocidental, o país sorteado não era tema do livro, mas dessa vez eu tinha como fazer uma nova tentativa e fazia questão de aprender um pouco mais sobre a Palestina, então emendei logo The Lady from Tel Aviv. E que bom que o fiz! Ele acabou se tornando um dos meus livros preferidos! The Lady from Tel Aviv - Raba'i Al-Madhoun

The Lady from Tel Aviv conta a história de Walid Dahman, um escritor palestino que retorna à Faixa de Gaza após um longo período de ausência. Foram 38 anos longe de casa, 38 anos sem poder ver sua mãe. Em 1967 Walid tinha acabado de terminar a faculdade quando aconteceu a Guerra dos Seis Dias e ele se viu impedido de voltar para casa, assim como outros milhares de refugiados palestinos. Ele reconstruiu sua vida em Londres, se casou e teve filhos, mas é claro que nunca deixou de ser um palestino, com todas as implicações e preconceitos que sua nacionalidade lhe impõe. Agora, com um passaporte britânico em mãos, ele  tem a chance de voltar.

No voo para Tel Aviv, a israelense Dana senta-se ao lado de Walid. Durante a viagem, o diálogo entre eles é bonito, esclarecedor, mas ao mesmo tempo triste, pesado. Não me atrevo a traduzir o texto, pois corro o risco de retirar parte de sua força, então transcrevo um pedacinho dele aqui, como o li em inglês, para tentar passar um pouco dos sentimentos nele contidos:

“But I’m not her colleague and no mere stranger. I’m the Other, aren’t I? I’m that kind of person whose being shakes her whole existence. And hers shakes mine. We’re not in a position to console each other. She’s Israeli, her accent proves it. No doubt she served in the military. Maybe she did her service in the Occupied Territories. Maybe she has shot at Palestinians. Maybe she played a role in the murder of my cousin, Falah.” (Walid)

“I hope that there can be peace between us and the Palestinians. We’re tired of the situation, all of us. The problem is not the people, it’s the politicians. Our politicians and yours.” (Dana)

Walid se despede de Dana, mas sua saga para reencontrar a família não termina no desembarque. Ele ainda precisa atravessar a fronteira de Gaza. Seu passaporte britânico, o que ele achava que abriria as portas mais facilmente, não se mostra tão útil. São momentos angustiantes que mostram muito desrespeito e injustiça. Quando, enfim, Walid chega em casa, ele tenta se reconectar com seu passado, mas nem sempre isso é possível. Muitas pessoas que fizeram parte de sua história foram vítimas de uma guerra estúpida (e qual guerra não é?). Sua mãe, por exemplo, teve a casa quatro vezes destruída por ataques israelenses. O fato de ela ainda estar viva parece ser mera sorte, pois a morte escolhe suas vítimas ao acaso em Gaza.

The Lady from Tel Aviv traz uma história dentro da outra. Ao retornar a Gaza, Walid procura inspiração para o livro que está escrevendo e que conta a história de um palestino que, assim como ele, volta depois de muito tempo longe, mas à procura de um amor da juventude. E em alguns aspectos essas histórias se confundem com a do autor, Raba’i Al-Madhoun, que foi viver em um campo de refugiados na Faixa de Gaza aos três anos de idade e, após passar por muitos percalços, chegou a Londres, onde vive até hoje.

Li um artigo que diz que na versão original, em árabe, uma parte do livro dá voz a Dana, mas que na publicação em inglês a estrutura foi alterada para acomodar apenas um narrador, ou seja, não foi apenas uma tradução. Confesso que eu gostaria de ter conhecido a versão dos fatos através de Dana também, pois a gente sabe que nem sempre é possível dividir os personagens apenas entre vítimas e vilões, muito menos quando falamos de pessoas comuns, com pouco ou nenhum poder de influenciar a decisão dos protagonistas da história. Mas mesmo sem essa parte eu adorei The Lady from Tel Aviv. O livro é lindo, sensível, envolvente e ao mesmo tempo informativo. Indico a todos que desejam conhecer melhor a realidade dos palestinos na Faixa de Gaza ou simplesmente para quem está em busca de uma boa leitura. Foi um dos melhores livros que li até agora no #198livros. Torço para que ele seja publicado no Brasil e possa alcançar um público mais amplo aqui!

Após ler o livro, assisti ao filme Uma Garrafa no Mar de Gaza. Foi um complemento perfeito à leitura.

The Lady from Tel Aviv foi publicado originalmente em árabe, em 2009, e em inglês em 2013, pela Telegram Books. A tradução é de Elliott Colla. O livro está disponível em Edição Kindle.

Mais alguns livros de autores palestinos:

  • Of Noble Origins, Sahar Khalifeh
  • Wild Thorns, Sahar Khalifeh
  • Mornings in Jenin (A Cicatriz de Davi), Susan Abulhawa

Saiba mais sobre o Projeto 198 Livros.

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10 Comments

  1. Lucimara Busch

    Camila, só estou aguardando seus comentários do livro, “Gomorra” rsrs, para adquirí-lo, pois quero me meter no desafio de lê-lo em italiano! 🙂

  2. deste eu nao vou conseguir escapar. vou procurar a versão francesa nessa semana ainda porque tudo o que diz respeito à palestina me interessa muito. tive um professor que veio direto de la so pra nos dar uma matéria na sciences po aqui em lyon e logo se tornou meu professor preferido. uma maneira calma de contar as injustiças que sofre o seu pais, sempre com muita cautela para nao tomar muito partido. quando as aulas acabaram, eu estava tao fascinada por ele que o convidei para jantar na minha casa (maluca, né?). queria que o leo pudesse ouvir um pouco das historias que me deixaram tao fascinada um semestre inteiro. era sua ultima noite em lyon e ele ja tinha combinado um jantar com outros professores da faculdade, por isso recusou o meu convite. apesar disso, fez questao de me deixar o seu cartao com todos os seus contatos na palestina. e olha que coincidencia, no dia seguinte leo e eu estavamos embarcando para londres e quem se sentou ao nosso lado? o professor! uma coincidencia tao incrivel que mal acreditamos. era a oportunidade que tinhamos para conhecer ainda mais a sua historia, cultura e aproveitar do seu conhecimento. foram horas de muita conversa! ficou a certeza de que ainda vamos nos reencontrar, da proxima vez em terras palestinas.

    um beijo, camila!

    • Mirelle, aposto que esse livro vai te comover também! Só não sei se ele já foi publicado na França. Espero que sim! E você não é nada maluca, eu também ia adorar bater um papo com seu professor. Foi você quem indicou o filme “Uma Garrafa no Mar de Gaza”? Sei que alguém falou sobre ele no twitter, mas não lembro quem. É muito bom também!

      Beijos! E estou muito feliz pela novidade que você anunciou hoje! 🙂

      • Não fui eu, Camila, mas ja anotei o nome para assisti-lo! O que vi no cinema esses dias e gostei bastante é um filme-documentario chamado “Dancing in Jaffa”. Um dançarino nascido em Jaffa em 1944 deixa o pais e se muda para os EUA. Vira campeão mundial de dança do salão, fica super famoso e, ja mais velho, retorna ao seu pais para realizar o seu sonho de colocar crianças judias e palestinas para dançarem juntas.

        Se sair no Brasil, tente assisti-lo!

        Um beijo!

  3. Que delícia de leitura, adorei o livro! E nossa, não me senti mais tão burralda lendo em inglês como foi no de Ruanda.
    Ainda bem que vc resolveu ler mais um livro da Palestina ou nunca teria lido esse!

    • Que bom que esse não decepcionou, Carla! É um livro lindo, né? Tenta assistir ao filme que eu indiquei para completar a experiência. O de Ruanda é mais difícil mesmo. Eu tive que reler várias partes para me entendê-las.

  4. Andréia Duarte

    Camila, indico dois livros muito bons: Eu vi Ramalah de Mourid Barghouti e Em busca de Fátima, da escritora Ghada Karmi.
    Leia os dois e voce se emocionará com relatos reais . O escritor Mourid Barghouti, participou de uma das FLIPS em Paraty.
    Abraços afetuosos.

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