198 Livros: Belarus – Paranoia

198 Livros - BelarusQuando eu li a sinopse de Paranoia, do escritor belarrusso Victor Martinovich, eu imaginei que se tratava de um livro parecido com o da Lituânia, Vilnius Poker, que não foi uma leitura muito fácil. O título já era sugestivo e o contexto de uma dominação ao estilo soviético era tema comum entre os dois. Hoje a Lituânia vive uma nova história, mas a Belarus é considerada a última ditadura ainda vigente na Europa. O presidente Alexander Lukashenko está no poder desde 1994 e é alvo de várias acusações referentes a fraudes nas eleições, violações de direitos humanos, censura e por aí vai. É claro que Paranoia, um dos raros livros do país traduzidos para o inglês, iria refletir esse cenário. E parece que ele fez jus ao seu nome, pois foi retirado das prateleiras de Minsk dois dias após sua publicação. Paranoia - Victor Martinovich

Paranoia se passa na capital de um país não nomeado que é governado por Muraviov, um ser praticamente onipresente na vida dos cidadãos ou pelo menos na de Anatoly, o jovem escritor que é protagonista do livro. A história se alterna entre seus relatos em primeira pessoa e relatórios detalhados do Ministério da Segurança que descrevem quase todos os seus passos de forma sistemática. São cartas interceptadas, escutas instaladas na casa de Anatoly, pessoas que o seguem nas ruas, vigilâncias constantes que não deixam passar quase nada. Ele tem uma leve consciência disso, ou melhor, ele pressente o que acontece, mas pouco pode fazer para confirmar suas suspeitas ou evitar essa invasão.

As duas narrativas, a de Anatoly e a dos relatórios,  quase sempre se relacionam a Elisaveta, uma mulher misteriosa que ele conhece em um café e por quem se apaixona perdidamente. E é essa história de amor que irá ditar os rumos da vida de Anatoly. Mas poderia ser Elisaveta apenas uma personagem criada pelo governo para aumentar o poder de infiltração em sua vida? No mundo em que eles vivem, tudo é possível.

O livro não traça uma linha clara entre o que é realidade e imaginação na vida de Anatoly. Algumas cenas são descritas de forma tão surreal que fica difícil acreditar que sejam verdade. Mas o que é vida real num cenário totalmente controlado pelo Estado? Por quanto tempo uma pessoa consegue permanecer lúcida submetida a um regime de constante repressão?

Através de uma história envolvente, Victor Martinovich conseguiu fazer uma crítica brilhante ao governo de Belarus. O que ele descreve nos assusta, nos deixa asfixiados, algo como 1984, sabe? Mas ainda assim é uma leitura que flui e que nos deixa sempre querendo ler o próximo capítulo para saber o que vai acontecer. O triste é pensar que essa história pode não ser totalmente ficção…

Paranoia foi publicado originalmente em russo, em 2010, e em inglês em 2013, pela editora Northwestern University Press. A tradução é de Diane Nemec Ignashev.

Saiba mais sobre o Projeto 198 Livros.

7 Comments

  1. Acabei de ler esse livro! Gostei demais!! Achei a segunda parte genial, a história de amor através dos relatorios… mesmo lendo em inglês, consegui captar o estilo particular da escrita do autor. Achei isso muito legal! E me senti em
    Minsk! Foi uma viagem e tanto! Obrigada pela dica!!

    • Camila Navarro

      Que legal que você se animou a ler, Joana! É um livro bem peculiar, né? Adorei ter a chance de conhecê-lo!

  2. Camila, eu também achei que a leitura seria mais complicada do que foi na realidade, embora tenha achado um pouco maçante. As duas primeiras partes prometem mais do que acontece.

    • Ana, eu fiquei achando que teríamos mais respostas do que tivemos, mas ao fim da leitura fiquei pensando que a intenção do autor foi essa mesmo, nos deixar sem saber o que era ou não real… Gostei!

      • Também gostei, ele escreve bem, consegue passar um pouco da loucura(ou paranoia) dele! É forte, demorei para me desligar dos personagens!

  3. Lu Malheiros

    Camila, o meu exemplar ainda não chegou. Está pedido desde maio…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.