Turismo Sustentável em Mamirauá

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Turismo Sustentável em MamirauáA Reserva Mamirauá fica localizada no estado do Amazonas, a cerca de 600 km de Manaus. Ela abrange uma área de mais de 1 milhão de hectares no curso do Rio Solimões, numa região de várzea ou, traduzindo, num terreno que fica alagado durante o período de cheia. Entre os meses de maio a setembro, a água sobre de 10 a 12 metros, deixando apenas as copas das árvores visíveis. Trata-se da maior área de floresta alagada do mundo! Isso faz com o que o ecossistema de Mamirauá seja especial, afinal, tudo o que vive ali – plantas, bichos e pessoas – precisa se adaptar à constante variação do nível das águas. E engana-se quem pensa que quando a água sobe todo mundo sai correndo de lá! Até as onças aprendem a viver sobre as árvores para driblar os caprichos da natureza.

Algumas espécies de animais, como o macaco de cheiro da cara preta e o lindo uacari-branco, são endêmicos na região, ou seja, só existem naquela área. Foi inclusive a preservação do uacari que ensejou a criação da reserva. O pedido foi feito pelo pesquisador José Márcio Ayres, que estudava os primatas da Amazônia, especialmente o uacari. Foi ele quem desenhou o modelo de implantação da Reserva Mamirauá.

Macaco de cheiro da cara pretaMacaco uacari-branco

Mamirauá foi criada como uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) em 1996, a primeira a ser implantada no Brasil. A característica mais interessante de uma RDS é o fato de ela não excluir a população local, mas desenvolver um modelo de participação comunitária que busca preservar a biodiversidade e melhorar a condição de vida das pessoas que vivem na região. As comunidades nativas são responsáveis pela gestão da reserva. Os recursos naturais continuam a ser explorados, desde que de forma sustentável, permitindo não só a conservação da natureza, mas também da cultura local. Mamirauá é gerida pelo governo do Amazonas com o apoio do Instituto Mamirauá, uma unidade de pesquisa com sede em Tefé que desenvolve um belo trabalho por lá.

Reserva Mamirauá

A visitação pública é permitida e incentivada nas RDS, desde que seja compatível com os interesses locais. Isso possibilita que haja turismo em Mamirauá, o que lá é realizado exclusivamente através da Pousada Uacari.

A Pousada Uacari existe desde 1998. O turismo em Mamirauá gera renda para a população, melhora a qualidade de vida dos ribeirinhos e ajuda a preservar os recursos naturais. Mas como assim? O turismo não pode ser destruidor? Pode! Por isso é preciso ter muito cuidado para que os impactos negativos sejam mínimos. Por conseguir fazer isso de forma eficiente, a Pousada Uacari é um exemplo de turismo sustentável no Brasil e já recebeu diversos prêmios internacionais.

Pousada Uacari

Para começar, a Pousada Uacari é gerida pelo Instituto Mamirauá em conjunto com os moradores da Reserva. O projeto que levou um professor de inglês para  lá faz parte de um plano de longo prazo para transferir totalmente a gestão da pousada às comunidades de Mamirauá. Hoje o guia naturalista, por exemplo, é alguém de fora e um dos motivos é que esse guia precisa ser fluente em inglês para atender aos turistas estrangeiros que representam 70% dos hóspedes na Uacari.

O turismo em Mamirauá é controlado para minimizar seu impacto. Tudo precisa ser pensado para não prejudicar o meio ambiente. A Pousada Uacari possui 5 bangalôs flutuantes, cada um com dois quartos, além da casa principal. Ela pode hospedar no máximo 20 pessoas de cada vez vez e um total de 1000 pessoas por ano. Toda a energia usada na pousada é solar, o esgoto é tratado antes de ser descartado e a alimentação privilegia os ingredientes locais. A sustentabilidade ali é levada a sério e vai muito além da reutilização da toalha e da separação do lixo reciclável.

Pousada Uacari

O que mais me impressionou foi a preocupação com o impacto sócio-cultural do turismo em Mamirauá. Exceto pelo guia naturalista, todos os demais trabalhadores da pousada são moradores da Reserva. Cerca de 40 pessoas trabalham diretamente na pousada em sistema de rodízio. São poucos os funcionários fixos, a maioria passa lá entre 10 e 12 dias e volta para sua casa, onde fica um ou dois meses até que tenha sua vez de novo na escala. Isso não só permite que mais pessoas sejam beneficiadas pelo turismo, mas também que possam continuar exercendo suas atividades tradicionais, como a pesca, a agricultura e o trabalho com a madeira. Há ainda as pessoas que vendem seus produtos para a pousada, aumentando ainda mais o alcance do turismo.

As remunerações não são altas, mas até isso tem um motivo, que é não criar uma grande desigualdade de renda entre os que trabalham na pousada e os demais. Conversei com um dos guias sobre isso e ele me disse que pode ganhar mais em outros trabalhos, mas que gosta da pousada porque lá o serviço é menos pesado e porque ele tem a chance de conhecer pessoas do mundo todo e se sente orgulhoso por mostrar a elas o local em que nasceu e cresceu. Não é sensacional?

Guia da Pousada Uacari

As comunidades criaram uma associação, a AAGEMAM (Associação dos Auxiliares e Guias do Ecoturismo de Mamirauá), que gerencia os funcionários – fazendo a escala dos guias e escolhendo os fornecedores, por exemplo – e decide a destinação dos lucros obtidos com o turismo em Mamirauá. No ano passado, pela primeira vez, a Pousada Uacari fechou o ano auto-suficiente.

Além da geração de renda, percebi que o turismo em Mamirauá tem ainda um impacto muito maior de conscientização. Se tanta gente vem de longe para ver o lugar em que você vive, é porque ele deve ser especial, né? E isso faz com que os esforços para preservação por parte da população sejam ainda maiores.

Para nós, turistas, tudo isso se converte em uma experiência inesquecível. Ir à Reserva Mamirauá é ter a chance de vivenciar a Amazônia de uma forma única, sabendo que você está causando o mínimo de impacto ambiental possível e que está contribuindo para melhorar a vida das pessoas da região. É o verdadeiro turismo responsável. A natureza é incrível, ver os animais é emocionante, mas o que me fez voltar realmente encantada com essa viagem foi o contato com as pessoas de lá. Ter a chance de conversar com eles, de conhecer histórias de vidas tão diferentes da minha, de ver como eles vivem naquelas condições que para nós parecem ser impossíveis foi o que me marcou. Foi entrar na mata com os guias que percebem o som de qualquer animal de longe porque cresceu naquele ambiente. Foi visitar uma comunidade local e descobrir que teve gente que foi morar na cidade, mas que voltou pra lá porque achou a vida em Manaus muito mais difícil. Foi ganhar um abraço carinhoso de uma senhora guerreira que é líder comunitária e vive numa casa sobre as águas. Foi tudo isso que me fez sair de Mamirauá com os olhos cheios d’água e morrendo de vontade de voltar. Pessoal da Pousada Uacari

Para variar, acabei falando demais. Vamos combinar então que no próximo post eu falo melhor sobre a hospedagem na Pousada Uacari e sobre o dia a dia por lá na época da cheia? Fazer o que se é só eu começar a falar de Mamirauá pro papo render demais? =)

Veja todos os posts sobre a minha viagem ao Amazonas.

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4 Comments

  1. Helder Ribeiro

    Muito legal, Camila!

    Estou aqui acompanhando os posts e aguardando ansiosamente os próximos. A reserva do Mamirauá está definitivamente entrando na minha lista de prioridades.

    Abração,
    Helder

    • Helder, acho que você vai amar Mamirauá! E olha que eles têm um pacote especial para fotógrafos, para aqueles que não se importam em ficar horas parados num mesmo lugar esperando o melhor ângulo. 😉

  2. Amei!!! Sempre quis conhecer e com essa proposta de turismo sustentável tudo fica mais legal ainda!
    Adorei o blog!
    Bjs

    • Da forma como o turismo é conduzida em Mamirauá a experiência é ainda mais interessante. É legal saber que o turismo pode ser benéfico para o local, né?

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