198 Livros: Angola – Os Transparentes

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198 Livros: AngolaAh, língua portuguesa! Por que eu demorei tanto para reconhecer seu valor? Precisei começar uma volta ao mundo da literatura para perceber que em nossa língua as histórias são mais belas. Pode ser que seja a saudade, essa palavra tão nossa, que me deixa emocionada quando me chega às mãos um livro escrito em português. No original mesmo, concebido com essas letras que a gente acha que conhece bem. Nessas horas eu percebo que nenhuma tradução consegue exprimir a real essência de um livro. Eles têm sotaque? Claro que têm! E o sotaque português é diverso e se espalha pelo mundo, mundo além de Brasil e Portugal. Por aqui ele já passou por Luís Cardoso no Timor Leste, por Mia Couto em Moçambique e agora chega na Angola de Ondjaki, através do livro Os Transparentes.

Os Transparentes é difícil de descrever. É sempre assim quando gosto demais do livro. Me dá vontade de falar “Não vou contar nada! Leia e depois a gente conversa!”, mas assim eu não te convenço, né? Pois então vamos começar pelo autor. Ondjaki na verdade se chama Ndalu de Almeida. Com apenas 37 anos, ele já publicou um bocado de livros e já recebeu diversos prêmios importantes. Hoje ele mora, vejam só, no Rio de Janeiro! Seu primeiro romance, Bom Dia Camaradas, talvez seja seu livro mais famoso no Brasil, mas foi por Os Transparentes que meus olhos brilharam. E que bom que o escolhi! Ele foi perfeito para o #198livros! Eu sempre procuro romances que de alguma forma representem o país, mas é claro que isso não quer dizer que qualquer livro seja a palavra definitiva sobre qualquer lugar. Cada história contada traz a versão dos fatos do autor, mostra o mundo como ele vê. E dessa vez a cidade que nos é apresentada através da lente de Ondjaki é Luanda, a capital da Angola. Os Transparentes - Ondjaki

A vida em Os Transparentes gira em torno de um prédio de sete andares habitado por personagens peculiares. Seus nomes parecem que nos dizem muito, mas às vezes também nos enganam. Tem a MariaComForça, o JoãoDevagar, o CamaradaMudo. E Odonato, o homem que foi ficando transparente ao deixar de comer para alimentar os filhos. Transparente não é só ele, mas toda essa gente simples, sofrida, que precisa lutar a cada dia para sobreviver em uma sociedade marcada pela corrupção. A história se expande e a esse enredo se juntam o VendedorDeConchas, o Cego, os Fiscais, o Ministro, o Assessor, o Carteiro… Até a jornalista que não consegue vender suas matérias porque o mundo não quer ouvir notícias boas sobre a África.

No prédio ocorre algo estranho. No primeiro andar, sem que ninguém saiba explicar o porquê, a água brota, mesmo que o restante da cidade sofra com sua escassez. O tal andar é o um segredo bem guardado pelos moradores, que encontram ali uma espécie de refúgio. Enquanto isso, Luanda está sendo sacudida, literalmente, pela CIPEL, a “comissão instaladora de petróleo encontrável em Luanda”. Os interessados não estão nem aí para a segurança do projeto, só querem saber do lucro. Parece confuso, né? E a princípio é! Mas aos poucos os personagens vão se conectando e tudo começa a fluir. O real se mistura com o imaginário quase que de forma natural. Até o fato de um eclipse ser cancelado pelo presidente já não nos espanta.

Uma coisa que torna Os Transparentes único é sua linguagem. O autor brinca com as palavras. Em meio a “condicionante de sobrinhagem” e “desfuncionamento do ar-condicionado”, ele nos apresenta diversas expressões típicas angolanas, como matabicho, maka, kota… Além disso, a construção dos parágrafos é meio diferente, as letras maiúsculas não aparecem onde a gente espera, a pontuação tem suas regras próprias. Uma mistura de Saramago, Gabriel García Márquez e Mia Couto, talvez? Vou transcrever uns trechos aqui para ilustrar:

“– maka? – maka é problema – entendi – maka grossa é problema mais complicado – maka grossa? – sim, maka grossa. e ainda tem “maka mesmo” –  maka mesmo? – que te acontece só assim. que te afeta, pode ser na tua vida ou no teu coração – no coração também pode haver “maka”? – então não pode? você que é tão jovem não sabe disso?”

“tudo dá errado há muito tempo, Raago, não te preocupes, depois a gente dá um jeito, este é o modo angolano de ir fazendo as coisas, se fizéssemos logo tudo bem havia inúmeras desvantagens, primeiro parecia que o trabalho era fácil e rápido, depois não tínhamos hipótese de brilhar com as correções, entendes?”

(Agora me diz se o segundo trecho não te fez pensar nas obras que vemos no Brasil? E não foi só isso não. Por lá  abrir igrejas é um negócio lucrativo e as novelas brasileiras fazem parte do dia a dia das pessoas. Não é só a língua que nos une a Angola. Por falar nisso, não é a primeira vez que vejo referência a nossas novelas nos livros e não só em países de língua portuguesa.)

Apesar de ter foco no presente, Os Transparentes acaba nos contando também um pouquinho da história de Angola, principalmente sobre o passado relacionado à guerra que se prolongou no país após sua independência, em 1975. Por causa dela, famílias foram divididas, vínculos foram quebrados. O reencontro com as origens parece acontecer através das línguas das diferentes etnias que habitam o país, sinal de que a colonização não conseguiu destruir todas as raízes do povo. Mas o livro é também muito engraçado, cheio de tiradas sensacionais. Em poucas palavras: vale muito a pena ler!

Os Transparentes foi publicado em Angola em 2012 e no Brasil em 2013, pela Companhia das Letras. O livro está disponível em Edição Kindle.

Mais livros de autores angolanos:

  • Jaime Bunda, Agente Secreto – Pepetela
  • Sabor de Maboque – Dulce Braga
  • Teoria Geral do Esquecimento – Jose Eduardo Agualusa

Para saber mais sobre o Projeto 198 Livros, clique aqui.

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15 Comments

  1. Lucimara Busch

    Olha eu também não escondo minha paixão por esses livros. Do Luis Cardoso eu não aguentei e já li mais um na mesma época. Do Ondjaki eu já tenho outro também. Tenho do Agualusa que é angolano. Da vontade de só ler esses agora né Camila? Que vício mais gostoso!

    • Nossa, agora eu nem compro outros livros, vou guardando essas dicas para depois. O #198livros vai demorar tanto que ao final eu sei que vou estar perdidinha ao final dele pensando nas outras dezenas de livros que quero ler! rsrs

      • Lucimara Busch

        Eu me seguro pra não comprar mais também. Esses que peguei, foi pra aproveitar promoção, então eu não resisti!

  2. Carla Portilho

    Que interessante, algumas das características que você aponta sobre o Ondjaki eu vi também no Pepetela… Talvez sejam características mais gerais da literatura angolana, como esse uso das palavras locais, o jeito próprio de escrever… Na edição brasileira do Jaime Bunda vem até um glossário para nos ajudar a entender o que os termos locais significam…

    • Carla, vejo essas características principalmente na literatura de países mais pobres ou menos famosos no cenário mundial. Parece que nesses casos os escritores têm o desejo de apresentar seu país ao mundo. Por isso achei difícil encontrar livros representativos de países ricos, como França e Holanda, onde parece que não há essa preocupação. Faz sentido? rsrs

      • Carla Portilho

        Faz todo o sentido do mundo, Camila… Os países que detêm o poder político e econômico já são os responsáveis por narrar a História do mundo desde sempre, não precisam se “apresentar”, como você disse. Os países do Terceiro Mundo, tenham uma herança pós-colonial ou não, narram sua própria história até como meio de tentar construir uma identidade nacional, muito embora o conceito de identidade nacional esteja sendo muito questionado hoje em dia…

        Olha, algo me diz que você não vai escapar de estudar literatura ao fim desse projeto, rsrsrs… Mesmo que não seja formalmente, em uma universidade, as teorias da literatura vão te pegar! 😉

  3. Lucimara Busch

    Camila, que livro bom! Me diverti com os nomes dos personagens que parecem ser de livro infantil. E o jeito, a história, as expressões como você citou aí na resenha. O também “vermelho-devagarinho”. Gostei demais. Fico ansiosa pra ler o próximo livro do Ondjaki 🙂

  4. Wanessa Lima

    Comecei a procurar alguns livros em português e disponíveis para o kindle para voltar ao projeto e que sorte a minha de logo o segundo que li ter sido Os Transparentes. Que livro lindo!
    Como minha leitura foi lenta, o começo não foi tão fácil, porque eu tinha dificuldade de acompanhar tantos personagens. Mas depois que a história engrena, fica difícil largar. No final, já estava poupando as páginas!
    A linguagem é deliciosa, às vezes poética, às vezes cômica. Não é à toa que Ondjaki citou o nome de Guimarães Rosa no texto. E as referências à cultura brasileira em geral me surpreenderam, porque nunca imaginei que o Brasil pudesse ter toda essa influência sobre Angola (adorei a “importação” do termo “bunda”!).
    Agora, o livro bem que poderia se passar no Brasil. Assim como o trecho que você mencionou, Camila, praticamente todos os que se referem ao Assessor, ao Cristalino, ao Ministro, enfim, à “maka” da água e do petróleo, me lembraram tanto do nosso país… E o que dizer dos Fiscais Desta Vez e Da Outra? Será que lá eles também falam de um tal “jeitinho angolano”?
    Também fiquei com muita vontade de emendar direto outros livros do autor, mas vou resistir pra poder continuar no projeto.

    • Wanessa, no início é complicado mesmo, pois a gente não entende o que está acontecendo e como é que as peças se juntam, mas sabe que eu gosto desse estranhamento inicial? É como começar a conhecer um lugar totalmente novo. No final, o início já ganha um novo sentido.

      Já vi referências ao Brasil em outros livros também e sempre fico espantada. Eles sabem muito mais de nós do que nós deles, né? Acho que nossas novelas são grandes responsáveis na disseminação da nossa cultura pelo mundo. Até na Bulgária eles assistiram Escrava Isaura!

      Fiquei pensando também se existe o jeitinho angolano. Bom, parece que sim, só falta saber que nome eles dão a isso.

      Eu vi algumas entrevistas com o Onjaki e fiquei com ainda mais vontade de ler outras obras dele. Sem dúvidas é um autor que vou acompanhar após o projeto. Já leu o do Timor Leste? É delicioso também!

      • Wanessa Lima

        É bem como você falou, Camila, começar a ler sem entender direito o enredo é como conhecer um lugar novo.
        Já tinha ficado interessada pelos livros do Timor Leste e de Moçambique, que você comparou com esse na resenha. Vou providenciá-los
        Ah! E A Escrava Isaura foi mencionada até pelo motorista do transfer que peguei em Moscou. Surreal!

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