198 Livros: Kosovo – My Cat Yugoslavia

198 Livros - KosovoEu procurei um livro do Kosovo durante muito tempo. Antes de ir ao país, em 2015, a única referência literária que encontrei foi de um livro antigo de Ismail Kadare, o autor de Abril Despedaçado, que inclusive foi minha escolha para a Albânia. Eu queria algo mais contemporâneo e que focasse no passado recente do país. Na capital Pristina visitei uma livraria, mas sem sucesso. Lembro que lá vi um cartaz sobre um evento literário e nele estavam listados nomes de alguns autores. Fotografei o cartaz para pesquisá-los depois, mas tudo que encontrei estava em albanês. Foi só em 2020 que, enfim, My Cat Yugoslavia cruzou meu caminho. Hoje posso dizer que a espera valeu a pena.

My Cat Yugoslavia é um romance do escritor Pajtim Statovci. De cara a gente se pergunta o quão autobiográfico é o livro, pois Pajtim, assim como nosso protagonista, o estudante Bekim, se mudou com a família para a Finlândia em decorrência dos conflitos que abalaram a extinta Iugoslávia no início dos anos 90. Conhecemos Bekim já adulto, vivendo em Helsinque, mas os capítulos se alternam com os de sua mãe, Emine, que nos conta sua vida desde a infância num pequeno vilarejo no Kosovo.

Através das narrativas de Bekim e Emine temos uma visão ampla da história recente do Kosovo. Quando ela nasceu o país ainda fazia parte da Iugoslávia, sob o regime de Tito. Nessa parte a cultura kosovar é belamente retratada, de forma até etnográfica. Enquanto acompanhamos o crescimento e o casamento de Emine, Tito morre e os conflitos entre sérvios e albaneses étnicos no Kosovo começam a ficar acirrados. Quando a violência chega muito perto, a família emigra. Eles já estão na Finlândia quando a Guerra do Kosovo de fato acontece, mas sofrem pelas imagens de sua terra que veem pela televisão.

My Cat Yugoslavia - Pajtim StatovciTemos um relato cru do que é ser um imigrante num país nórdico. O livro trata da ausência de oportunidades, dos preconceitos, da dificuldade de ambientação e da barreira linguística, que, claro, são piores para a primeira geração. Mas quão finlandeses são os filhos de imigrantes que crescem na Finlândia? A xenofobia não os poupa também.

“I would become wise and influential, able to formulate coherent arguments in German, English, and Swedish. I thought that in doing so I would be able to make different choices from those of my parents, who arrived in this country and had to start their lives again from scratch. I would find work and achieve a good life, affluence and a decent pension, the freedom to do everything differently. And friends whose encouragement would give me the determination to do just that.

But the more I studied and the more job applications I sent off, the quicker I realized that that doesn’t happen to people like me.”

Bekim sofre preconceito não somente por ser imigrante, mas também por ser um homem gay em um mundo que não o aceita. Ele vive praticamente recluso eu seu apartamento e como companhia tem apenas uma jiboia. Não uma planta, mas uma enorme cobra mesmo. Sua escolha de animal de estimação é bem inusitada, já que na infância ele tinha pesadelos recorrentes com cobras. Para deixar a história ainda mais maluca, numa certa noite ele conhece um gato, como o que ilustra a capa do livro, e com ele começa um relacionamento que fica cada dia mais abusivo. O gato é um personagem complexo e maravilhoso. Eu não esperava encontrar esse componente fantástico, mas no final achei tudo muito divertido.

O livro é também profundo ao tratar de muitas questões relevantes de cunho pessoal e coletivo. Quando digo que ele fala da História do Kosovo, da situação dos refugiados na Finlândia, de xenofobia e homofobia e ainda com um gato-humano como personagem pode parecer que ele mistura coisas demais, mas o autor conseguiu fazer isso maravilhosamente bem em menos de 300 páginas. Isso porque nem citei o pai de Bekim e toda a questão da violência doméstica tratada em My Cat Yugoslavia. Eu realmente gostei muito dessa leitura.

Além do inglês, o livro já foi traduzido para o espanhol e para o francês e eu gostaria muito de vê-lo publicado no Brasil, assim como outros livros de Pajtim Statovci que eu gostaria de ler. O Kosovo é um país que merece ser (re)conhecido, pessoalmente ou através da literatura.

My Cat Yugoslavia foi publicado originalmente em finlandês, em 2014, e em inglês em 2017, com a tradução de David Hackston.

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