Turismo de massa, sustentabilidade e escolhas

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Minha primeira viagem à Europa teve um roteiro nada convencional para uma estreia no velho continente: Suécia, Finlândia, Rússia, Estônia, Letônia e Lituânia. Não é que eu seja a diferentona não, foi uma simples questão logística. Eu queria visitar uma amiga na Suécia e os países vizinhos vieram no pacote. Surpreendentemente, os três últimos países foram a grande surpresa da viagem. Talvez a falta de expectativa tenha sido o fator mais importante. Eu não sabia quase nada sobre os Países Bálticos. A única blogueira que eu conhecia que já tinha ido para lá era a Fê Costta, do saudoso blog Viaggio Mondo.

Riga

A Casa dos Cabeças Negras, em Riga, na Letônia

Foi uma experiência importante, que me mostrou que países que à primeira vista parecem exóticos podem ser visitados tranquilamente. Depois disso, acabamos seguindo uma tendência de viajar a países que não costumam figurar na lista de mais populares. Não foi algo planejado, simplesmente foi acontecendo. Não sei quantas vezes já me perguntaram algo como “É sério? O que tem pra fazer no país tal? O que você foi fazer lá?” E o tal país pode ser o Kosovo, a Armênia ou o Laos.

A linda Prizren, no Kosovo

A linda Prizren, no Kosovo

A gente dizia que queria fazer essas viagens mais difíceis enquanto ainda não tínhamos filhos, mas a verdade é que agora temos mais vontade de conhecer Bósnia ou Uzbequistão do que França ou Estados Unidos. Algumas experiências em locais mais famosos, como a visita aos Templos de Angkor ou rápidas passadas por Roma, serviram para nos mostrar que a gente realmente prefere destinos mais vazios. E não é simplesmente para não ter que competir com outros turistas na hora da fotos, mas porque o clima local também é muito diferente em cidades que ainda não foram impactadas pelo turismo de massa.

Roma

Roma, lotada!

Foi quando eu comecei a planejar nossa viagem para o Sudeste Asiático que comecei a me atentar para a questão da sustentabilidade frente à lotação dos destinos turísticos. Depois de descobrir que algumas praias tailandesas se encontram à beira de uma catástrofe ambiental por causa do turismo de massa sem controle e sem infraestrutura compatível, resolvi tirar a Tailândia do roteiro. Tentei fazer escolhas conscientes, por exemplo na hora de escolher a operadora que nos levaria a Halong Bay e passeios que faríamos em Siem Reap ou de decidir não fazer nenhum passeio com elefantes. A verdade é que o Sudeste Asiático é um prato cheio para quem quer debater práticas turísticas sustentáveis e éticas.

Halong Bay

Halong Bay, no Vietnã

Mesmo sem muito conhecimento sobre o impacto do turismo de massa nos locais turísticos, eu mesma fui revendo minhas decisões e alterando certos hábitos, mas já ficou claro que não dá para deixar as escolhas apenas na mão das pessoas. E com o número de turistas aumentando a cada ano, restringir ou mesmo proibir seu acesso a determinados destinos turísticos tem se tornado uma tendência global.

Vejam alguns exemplos:

Ta Prohm

O Templo de Ta Prohm, no Camboja, ainda vazio pela manhã

Eu sou totalmente a favor dessas medidas, simplesmente porque elas são necessárias para que as atrações continuem existindo. Há poucos dias li uma matéria interessante no El País, em espanhol, sobre os dilemas do turismo. O primeiro parágrafo traz uma ideia com a qual eu concordo. Reproduzo o trecho aqui, em tradução livre e grifo próprio:

“Sustentabilidade é sinônimo de diversificação. O problema não é que existam turistas demais, porque o mundo pode acomodar muitos mais. O problema é que eles estão todos no mesmo lugar ao mesmo tempo. Também não é verdade que o turismo seja intrinsecamente prejudicial à estabilidade social ou ao meio ambiente. Pelo contrário, ele pode propiciar a redução da pobreza e a distribuição da riqueza, bem como se tornar um incentivo à proteção do meio ambiente. Claro que, para isso, ele deve ser bem gerenciado.”

Relógio Astronômico - Turismo de Massa

Multidão sob o Relógio Astronômico em Praga

Claro que não é o caso de todo mundo simplesmente deixar de conhecer Londres ou Paris, essas cidades não são famosas à toa, mas é possível descobrir que o mundo vai além da lista de destinos mais populares. E em qualquer destino é possível fazer escolhas mais sustentáveis, seja na hora de escolher o transporte, os passeios ou a hospedagem. Ah, daria para escrever mais um post inteiro apenas sobre a polêmica do Airbnb… Podemos desdobrar o tema em várias frentes!

Khndzoresk

A Ponte Suspensa de Khndzoresk, na Armênia: surpreendente e pouco conhecida

Na verdade esse post é apenas uma introdução sobre o assunto, um apanhado de ideias que rondam minha cabeça sempre que vejo notícias sobre os problemas do turismo de massa ou sobre boicotes a turistas que andam acontecendo em algumas cidades. E também alguns dos motivos que na maioria das vezes me levam a escolher destinos pouco conhecidos. Não sei se essa é a saída ou se o melhor que posso fazer é simplesmente ficar em casa.

Você também se sente parte do problema? O que podemos fazer, individualmente, para não nos tornarmos turistas predadores, se é que isso é possível? Bora conversar sobre o assunto na caixa de comentários! Há muito pano pra manga!

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10 Comments

  1. Adorei o post, Camila. Ano passado fui para a Espanha no inverno, fora da temporada. Amei a Andalusia de paixão, mas fiquei muito frustrada em Barcelona. Tudo era caro, lotado, o assédio a turistas é grande, os albergues ficam cheios de gente fazendo Eurotrip, as ruas ficam cheias de gente fazendo pub crawl. Eu me peguei várias vezes comparando com a Bósnia, onde eu fui seis meses antes e me apaixonei tanto que tô fazendo o TCC sobre ela.
    Eu acho ótimo que fiz o oposto, comecei indo para lugares muito turísticos, porque hoje em dia não tenho mais paciência, haha. Ainda amo ir para Roma e Londres, mas não encaro os lugares mais famosos em horário de pico por nada.

    • Camila Navarro

      E logo em Barcelona está havendo uma onda de hostilidade ao turismo, né? Porque esses preços altos e a lotação impactam a vida dos moradores também… Acho que eu fiz o caminho errado. Começar pelos lugares menos famosos me de deixou muito mal acostumada!

      • Tinha muita placa de “Refugees Welcome, Tourists go Home”. Tem cidades que recebem por dia mais gente do que tem de população, realmente, viram meio Disney, com tudo falso e sem uma vida local autêntica. Vamos ver se Barcelona vai conseguir regular isso.
        Hahaha, com certeza, mas não se preocupe. Se um dia você ficar com vontade de ir a qualquer um desses países mais famosos, também dá para viajar offbeat por lá. Deve ter umas cinquenta cidades absurdamente incríveis na Itália e na Espanha, mas todo mundo vai em três, e principalmente no verão. Em cidades grandes como Londres, você aprende a evitar certos lugares e nem vê tantos turistas. Mesmo em cidades famosas, eu só me sinto parte do problema em alguns lugares ou atrações, que vejo que estão insustentáveis mesmo. Aí entro em um museu menos conhecido e estou só eu lá dentro, hahaha.

        • Camila Navarro

          Sim, é possível dar uma driblada na lotação! Para começar, não viajando em alta temporada. Em cidades menores, basta não fazer apenas bate e volta, pois pela manhã e à noite elas costumam estar vazias. E sempre há essas atrações que não atraem tanta gente para que possamos nos refugiar. =)

  2. Camila, que post legal!
    Esse é um tema que certamente vai render muitas conversas e boas discussões.
    Dei uma lida rápida nos links que você deixou (algumas matérias eu já tinha lido) e fiquei pensando nas viagens que já fiz. Nunca fui fã de multidões, então sempre tento fugir de lugares muito populares. O fato de poder tirar férias fora da alta temporada também ajuda em alguns casos.
    Acho que as restrições, desde que bem pensadas, são uma forma de reduzir o impacto a curto prazo. Lembro de uma conversa que tive com um guia em Fernando de Noronha, há dois anos atrás, quando ele me explicava porque a restrição acesso marítimo (cruzeiros principalmente), tinha sido benéfica porque era um tipo de turismo que não contribuía economicamente para a ilha e ainda tinha um grande impacto ambiental. Quando viajei pra lá, em 2015, o que encontrei foram praias bem conservadas e praticamente desertas. Claro que o custo disso tudo acaba sendo mais alto, mas aí já é outra discussão…
    Enfim, acho que é um assunto pra muita conversa. Inclusive, sobre o Airbnb, também daria uma excelente discussão, e bastante polêmica.
    🙂

    • Camila Navarro

      Eu também só viajo fora de temporada. Vamos ver quando meu filho estiver na escola, se eu vou conseguir driblar a questão das férias. Espero que sim, pois a lotação e os preços da alta temporada me espantam!

      As restrições acabam encarecendo os lugares mesmo. Ou o preço é que acaba sendo um limitador, como no caso de Fernando de Noronha ou do Butão. O governo do Butão deixa claro que o elevado custo para os turistas tem o papel de evitar o turismo de jovens em busca de festas que lota os vizinhos no Sudeste Asiático.

      Acho que a questão do Airbnb seria mais polêmica mesmo, porque é o meio de hospedagem preferido de muita gente, né? Mas há tanta coisa envolvida! Talvez eu ainda escreva um post sobre isso!

  3. Camila, parabéns pelo seu post. Compartilho com você esses mesmos pensamentos. Por que se enfiar em filas e multidões se existem tantos lugares interessantes no planeta terra? Hoje mesmo uma amiga disse que está se desencantando com Capitólio, em Minas. Da última vez que foi havia filas de ônibus turísticos. Gosto muito de lugares diferentes, não para dar uma de bacana, simplesmente porque acho mais inteligente ir para onde ninguém vai, no contra-fluxo do marketing turístico.

    • Camila Navarro

      Fernanda, leio isso e fico triste, porque ainda nem conheço Capitólio. rsrs Pra tentar driblar o problema eu tentaria ir até lá fora de férias e feriados e quem sabe no meio da semana. Mas como somos um país cujo turismo vive em função da alta temporada, talvez eu nem encontrasse restaurantes abertos ou passeios disponíveis…

  4. Oi Camila!! Apesar de não comentar muito por aqui, sigo teu blog faz tempo e ainda te acompanho sempre no ONDEM… Muitas dicas boas de livros que já peguei nas suas indicações!

    Me identifiquei muito com o seu post… Fui pela primeira vez esse ano pra Europa e os países escolhidos foram a Islândia e a Noruega! Ano passado ficamos 20 dias no Alasca… Então apenas imagine o tanto que eu ouço de: “Mas vai fazer o que lá?” “Vc precisa ir pra Paris, vc precisa ir pra Italia….” ou hoje em dia “E aí, qual vai ser o destino exótico das próximas férias? Vão pro Everest?” Olha… hahahah

    Não foi sempre assim, mas hoje em dia férias pra mim é sinônimo principalmente de sossego, de lugares bonitos, de tranquilidade… Adoro fazer trilha, estar na natureza!! Não sei se é pq sou de São Paulo e de vucovuco e muvuca já basta o meu dia a dia, mas eu quero fugir de multidão, de fila… Não quero me preocupar se vão me roubar no metrô, sabe? Minhas férias são meus dias de real descansar a cabeça!!

    Já fui pra cidades maiores, NY foi minha primeira cidade fora do Brasil, gosto de Buenos Aires… Esse ano fui pra Cidade do Cabo e amei do fundo do coração… Mas sempre tento fugir (na medida do possível) do que é muito turístico. Tem muito lugar bonito pra se ver por aí!!

    🙂

    • Camila Navarro

      Oi, Marcela! Que bom que resolveu comentar! Nossa, só de pensar em enfrentar fila nas férias me dá uma preguiça! São só 30 dias por ano e eu vou perder tempo assim? rsrs Ainda bem que o mundo é muito maior do que as propagandas das agências de turismo!

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